terça-feira, 30 de outubro de 2012

Os muros

Bom texto. Apenas acrescento, por fazer parte dela, que uma certa linha de pensamento se espalha por todos os segmentos, desde funcionários, alunos, professores e diretores, em que a própria USP vem se colocando como uma "bolha social", criando muros que a distanciam cada vez mais tanto do poder público quando da própria cidade e sociedade em geral. E os portões, físicos e virtuais, de acesso à maior universidade da América Latina, estão cada vez mais altos, mais vigiados e mais fechados à grande maioria. Uma pena.


VLADIMIR SAFATLE
Um muro
Em seu discurso da vitória na eleição para prefeito de São Paulo, Fernando Haddad lembrou dos muros da desigualdade a que a cidade está submetida. Este tema dos "muros" merece, de fato, ser mais discutido, pois eles conseguem se perpetuar ao longo das sucessivas administrações que passam pela prefeitura.
Um dos muros mais impressionantes de São Paulo é aquele que isola seus intelectuais do debate sobre os rumos da maior megalópole do hemisfério Sul.
Na cidade de São Paulo encontra-se, por exemplo, a mais importante universidade da América Latina, responsável por algo em torno de 25% das pesquisas acadêmicas desenvolvidas no país. Só para se ter uma ideia desse peso proporcional, a mais importante universidade dos Estados Unidos (Harvard) responde por apenas 3% da pesquisa realizada nas universidades norte-americanas.
A cidade, no entanto, costuma não ouvir sua maior universidade quando procura por ideias e soluções para seus problemas. Ela despreza parte significativa de sua inteligência e não sabe utilizar a força crítica de seus acadêmicos a seu favor.
As inúmeras pesquisas desenvolvidas pela universidade sobre política cultural, planejamento urbano, impacto de medidas de segurança, problemas em práticas educacionais e políticas de direitos humanos são vistas pelos poderes públicos com desconfiança, já que nem sempre elas são laudatórias.
Um novo momento da política brasileira passa necessariamente pela definição de relações entre administradores que devem resolver problemas públicos complexos e intelectuais independentes que marcaram sua atuação profissional pela procura em aprimorar sua capacidade crítica.
Muitos temem que isso seja uma forma insidiosa de "cooptação". Melhor seria lembrar que todos os países que realizaram verdadeiro desenvolvimento social só o conseguiram quando tiveram figuras públicas dispostas a escutar o que seus intelectuais e artistas tinham a dizer -mesmo que essas falas nem sempre fossem música para os ouvidos dos que estão do outro lado. Há uma escuta do dissenso que deve ser aprendida.
No momento em que o poder público volta a enxergar os muros da cidade, a universidade pode ser um importante ator de transformação social.
Se parte significativa da inteligência nacional está em São Paulo, é burrice continuar ignorando-a a fim de repetir os erros de sempre.
Colocando-se para além dos partidos e das filiações partidárias, ela sempre teve um poder de transformação menosprezado. Não há por que dar sequência a esse menosprezo.

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